sábado, 9 de maio de 2009

Visita ao Santa Marta

O grupo realizou uma visita à comunidade do morro Santa Marta, no bairro de botafogo da cidade do Rio de Janeiro. Tivemos como guias um morador e um amigo de um dos integrantes do grupo, que nos apresentou.

a partir da esq.: Carolina, Arjan (integrantes do grupo), Gabriel (morador) e André no telhado da capela no pico do morro

Presente no morro há cerca de 5 anos, a prefeitura vem investindo muito em obras de urbanização e ações sociais e já acabou com quase todos os barracos de madeira, realocando os moradores em casas de alvenaria, além de asfaltar ruas, becos e escadas e criar o plano inclinado (uma espécie de bondinho com 5 estações que vai até o pico do morro). A polícia também está presente no morro, onde não há mais tráfico de drogas.

construções precárias no pico do morro - a prefeitura vem trabalhando para realocar as famílias morando nessas condições


estação do plano inclinado no pico do morro



posto da polícia ao lado da estação e campo de futebol no pico do morro


A prefeitura também instalou diversos postos de atendimento à comunidade, como o Polo de Inclusão Social Padre Velloso, onde há assistentes sociais, um centro de envelhecimento saudável e qualidade de vida e também outro de saúde e defesa civil. Há também centros de inclusão digital com acesso gratuito à internet. Outro local importante é o POUSO, Posto de Orientação Urbanística e Social, que presta consultoria para os moradores orientando-os em suas próprias construções e reformas, auxiliando-os a regularizar suas casas e a preservar o espaço público e as melhorias já implementadas. Técnicos e arquitetos trabalham no local, ficando à diposição para consultas dos moradores e realizando visitas à comunidade. Materiais educacionais sobre uso adequado do espaço público, da rede de esgoto etc são distribuídos aos moradores.

Diversas ONGs atuam no Santa Marta, dentre elas o grupo ECO, que realiza atividades de lazer com as crianças da comunidade e organiza mutirões de limpeza, por exemplo quando chuvas tornam muito perigoso o acúmulo excessivo de lixo nas escadas e becos devido ao transbordamento das valas.

lixo acumulado

A favela inteira é muito úmida, como pode ser observado pela presença de limo e vegetação em todas as pedras, escadas, muros e paredes externas de muitas casas. A sensação é de que há água correndo por todos os lados, há sempre barulho de água correndo, canos pingando, grandes áreas molhadas no chão e nas escadas, sendo muito difícil entender sua origem, se de nascentes ou vazamentos. Há nascentes no alto do morro que geram pequenos córregos que descem pelas encostas. Observando a continuação do morro, ainda com a vegetação original, pode-se notar muitas faixas de água descendo pelas pedras. Segundo José Mario, presidente da Associação dos Moradores (que atua na comunidade há mais de 40 anos), embaixo do morro há um lençol freático e um rio corria no local, portanto, hoje a água tem que encontrar "por onde sair".

vazamento de água na rua principal

água escorrendo pelas ruas e escadas

vegetação, limo e umidade nas pedras. animais passeiam pelo local

umidade e limo no exterior de uma casa

A água tratada pela CEDAE chega a grande maioria das moradias, a partir de um grande reservatório no alto do morro, havendo também torneiras do lado de fora das casas. Quase todas as casas têm caixas d'água próprias, mas nem todas em condições adequdas, havendo vazamentos, caixas abertas etc. A estrutura de encanamentos é localizada no exterior de muitas casas, a respeito do que o presidente da Associação dos Moradores informa que a urbanização está trabalhando para que todas as instalações sejam subterrâneas. Há muitos vazamentos e precariedade nas instalações atuais. Apesar das contas da CEDAE chegarem à associação cobrando uma taxa de cada morador, muitos não realizam o pagamento, não havendo quase nenhuma conscientização em relação ao consumo e economia de água.

torneira de água da CEDAE do lado de fora de uma casa

caixa d'água aberta com vazamento

caixa d'água e encanamentos no exterior de uma casa na comunidade

Uma fonte alternativa de água são as "minas" e o "pocinho", locais onde a água da nascente e dos córregos naturais no morro podem ser recolhidas. Os moradores utilizam essas águas para lavar roupa, tomar banho ou mesmo para beber e cozinhar quando falta água da CEDAE, chegando a formar filas de noite para pegar água. A água da mina principal é salobra e em todos esses locais não há nenhum tipo de cuidado ou tratamento da água, que os moradores admitem ser inapropriada devido a poluição pelo lixo e animais que transitam livremente. Os próprios moradores comentam que a água nessas fontes jorra ininterruptamente, reconhecendo aí um desperdício do recurso que poderia estar sendo armazenado para ser melhor aproveitado.

morador recolhe água da mina principal

menina recolhe água de outra mina

"pocinho"


Principais problemas relacionados à agua enfrentados pela comunidade

Falta d'água

Apesar da boa distribuição da água da CEDAE por toda a comunidade, segundo os moradores são frequentes as faltas de água, sendo este o pricipal problema enfrentado por eles. Quase todas as casas têm caixas d'água que, dependendo da capacidade, podem garantir o abastecimento até que a água volte a chegar, mas muitas vezes leva mais de uma semana (apesar de a Associação de Moradores entrar em contato com a CEDAE assim que o problema é identificado). Nem sempre a falta d'água acontece ao mesmo tempo em todo o morro, sendo comum a situação de uma área estar com distribuição normal enquanto outra está sem água há dias. Aparentemente, a causa seria problemas com as bombas, que páram de funcionar e então a água não tem pressão para chegar a todas as casas. A alternativa encontrada pelos moradores é utilizar a água das minas e do pocinho. No exterior de muitas casas pode-se observar baldes e tinas utilizadas para recolher água. Alguns moradores utilizam essas águas para todos os usos, fervendo a água que irão beber ou utilizar para cozinhar. Outros compram galões de água mineral (o que não é uma opção para muitos devido ao alto custo) ou mesmo pedem para usar a água encanada dos vizinhos.

Os moradores comentam que pensam em ligar para o RJ TV, jornal da Rede Globo, que quando visitou o local conseguiu que o problema da falta d'água fosse solucionado, mas por pouco tempo.

baldes utilizados para coletar água

roupas deixadas de molho na água da nascente e baldes utilizados para coletar água

Qualidade da água consumida

Muitos moradores contam que bebem a água da torneira diretamente, sem a preocupação de filtrar ou ferver, acreditando que a água encanada seja suficientemente tratada e própria para esse consumo. Quando falta água da CEDAE e a água das minas e do pocinho é utilizada, só a água utilizada para beber e cozinhar é fervida. Entretanto, é sabido que muitas doenças podem ser contraídas pelo simples contato com a água não tratada, seja no banho ou na lavagem da roupa e da louça.

moradoras lavam roupa com água da mina no próprio local

Valas

O esgoto de todas as casas é despejado em valas que descem pelo morro a céu aberto. Além das águas que correm ali não serem tratadas, muito lixo é depositado nas valas, tornando-as um verdadeiro rio de lixo, atraindo animais e causando doenças e mau cheiro. Apesar de haver garis comunitários para recolher o lixo por toda a comunidade e lixeiras da Comlurb em frente à primeira estação do Plano Inclinado, onde o lixo pode ser depositado para compactação, muitos moradores continuam jogando lixo nas valas, cuja limpeza é muito difícil e até mesmo perigosa. Juán, filho do presidente do Grupo Eco, diz que já se pensou em fechar as valas e que algumas até já foram fechadas, mas não sabe infrmar porque isso ainda não foi feito nem se há previsão.

lixo nas valas - difícil de tirar

lixeiras e compactdor de lixo da Comlurb (primeira estação do Palno Inclinado)

Infiltrações e insalubridade

Devido a grande umidade do morro, causada pela água das nascentes, valas e córregos subterrâneos que correm por toda a comunidade, muitas casas são acometidas por infiltrações. Também são causas de infiltrações os vazamentos, que os moradores às vezes demoram a concertar por falta de recursos financeiros (e nem sempre o fazem de forma adequada por falta de mõ de obra devidamente capacitada) e também o empoçamento das águas pluviais, já que a urbanização não criou canais adequados para seu escoamento. Em algumas casas chega a entrar água pelas paredes quando chove, já que as construções não têm impermeabilização adequada. Por estarem construídas em encostas com até 45 graus de inclinação e com pouquíssima ou nenhuma ventilação entre as casas vizinhas, muitas casas são como cavernas, úmidas e frias. O mofo causa problemas respiratórios e alergias em muitos moradores, principalmente as crianças. O mau cheiro é perturbador em toda a comunidade e muitas casas, segundo Giselle, arquiteta responsável do POUSO, apresentam problemas gravíssimos de insalubridade.

banheiro de uma casa na comunidade

cozinha de uma casa na comunidade

Chuvas

As chuvas, frequentes na cidade do Rio de Janeiro, são uma ameaça grave para os moradores do Santa Marta, por causarem diversos problemas. Além das já citadas infiltrações, as chuvas podem causar deslizamentos em áreas onde o terreno não for firme o suficiente. Há mais de 20 anos não ocorrem deslizamentos realmente graves (com desabamentos e mortes), mas ainda assim é preciso haver cuidado, observação e orientação constantes para garantir que o crescimento da favela não volte a aumentar o risco de desabamentos.

Mas o problema causado pelas chuvas que mais atrapalha o dia-a-dia dos moradores é que a chuva desce pelas ruas e escadas do morro sem nenhum tipo de escoamento. O resultado é que a queda d'água vai ficando cada vez mais forte, formando verdadeiras cascatas nas escadas da parte mais baixa da favela. Como se isso não bastasse, a correnteza ainda carrega todo o lixo depositado nas valas, que transbordam. Em grande parte das casas é preciso fazer barreiras com tábuas de madeira ou pedaços de papelão para evitar que o lixo entre, mas é impossível impedir a entrada da água. O lixo causa entupimento dos canos por onde escoa o esgoto e o curso da água é invertido, transbordando para dentro das casas. O encanamento da mina principal também entope por causa da chuva e então a principal fonte alternativa de água fica inutilizada.

casas com entradas desprotegidas das "cascatas" formadas nas escadas

barreiras improvisadas para impedir a entrada do lixo arrastado pela correnteza
As águas fluviais e pluvias que descem pelo morro, além das águas das valas, se juntam no pé da escada principal do morro e seguem para os bueiros da Rua São Clemente, não havendo nenhum tipo de tratamento ou reaproveitamento dessas águas.
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Mais fotos da visita do grupo ao morro Santa Marta estão disponíveis no álbum reflecting waters 09 do picasa.

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